Michele Moura X Luiza Rosa = palpebrada

04/dez - 03:00

Em torno da oficina Partitura dos olhos, ministrada por Michele Moura.

 

A tarde estava quente, ainda mais pelo reflexo alaranjado da luz do sol nas paredes brancas da sala de ensaio, do Teatro Municipal José de Castro Mendes. A luz desvanecia enquanto abríamos e fechávamos os olhos, seguindo uma partitura. Mas não era só isso. A sensação de que os olhos já não mais apenas observavam, mas tateavam o ambiente, sobressaía.

Entre 15h e 18h, do dia 22 de setembro, Michele Moura e Clara Saito partilharam com cerca de 10 pessoas, procedimentos do entorno da criação de “Blink Mini-Uníssono Intenso-Lamúrio”, que estreou durante a Bienal Sesc de Dança. A essa partilha, deram o nome de “Partitura dos olhos”.

Movimentos, observações: como o corpo responde, reage, se adapta, se transforma com o movimento e como ele tem seus próprios ritmos.

Iniciamos com respiração da yoga kundalini, depois recebemos a proposta: “Vocês terão cinco minutos para fechar a mão direita, está bem?”. Contados no relógio. A matéria da mão ganhou textura nova, o tendão ficou presente, percebia que entre um estágio e outro do movimento haviam hiatos: fechar a mão não era um ato contínuo.

Nos propusemos a caminhar lentamente, também. E a sensação retornou: tendões, os dedos tocando o chão, entre um estágio e outro do movimento haviam hiatos: caminhar não era um ato contínuo.

“Com um metrônomo, iremos ordenar o abrir e o fechar dos olhos dessa maneira: seis segundos com eles abertos. Um com eles fechados. Quatro segundos: abertos. Um: fechado. Três abertos. Um fechado. Dois. Um. Dois, um. Dois, um. Dois, um. Um-um; um-um; um-um; um-um.”. E seguiu um crescente que incluiu os braços, junto ao movimento das pálpebras, e, depois, o deslocamento pela sala.

As piscadas já têm um ritmo, ele se relaciona com outros pulsos como o dizer, o fechar um raciocínio, mastigar um alimento, observar o desenrolar de uma ação.

Ter de seguir um pulso externo, desestabiliza. As pálpebras se aproximam do músculo que são, se afastam das janelas da alma que geralmente tendem a ser. Senti-me palpebrada. Perturbou também: a respiração e a tensão da musculatura do corpo todo.

“Que bonito, gente. Nunca havia visto tantas pessoas se empenhando na proposta. Muito obrigada.”, disse Michele fechando o encontro.

 

Luiza Rosa: para soprar, ela escreve; para conhecer, ela dança.