Luis Garay X Bruna Spoladore = Experiência: humanos e objetos lado a lado

08/dez - 21:19

Entorno de Futuros Primitivos, de Luiz Garay

 

Objetos são arremessados formando uma camada de coisas inúteis. A imagem se assemelha às ruas de algumas das grandes cidades em que o lixo se acumula, são garrafas, cordas, pneus, caixas, um amontoado de entulhos que deixaram de ter valor capital. Não são algo para, apenas são e assim tornam-se lixo. Para onde vai tudo isto? Estamos consumindo o planeta e, enquanto isto, muitos ambientes acumulam coisas sem utilidade.

Em cena, um deslocar de forma cambaleante gerado pelo contato com o chão, nada plano e regular. É um ambiente que produz corporalidades, ou seja, gera um tipo de corpo e de movimentação específica. Um chão que mobiliza, desequilibra e transforma quem resolve experiênciá-lo. Conforme os performers se agrupam maior a dificuldade em se deslocar. O estar-junto pode trazer alento, mas às vezes nos desestabiliza e pode trazer muito mais conflitos.

Cada performer se depara com um objeto. Depara-se porque não parece que haja uma escolha com relação à coisa, mas sim um reconhecimento do que já está próximo de cada um em certos momentos. Parece que a percepção está voltada para uma escuta, não é sobre como eu, ser humano, posso manipular os objetos, mas, sobretudo, deixar-se ser afetado por estes, escutar tanto, afetar-se tanto a ponto de embaralhar as fronteiras entre seres humanos e objetos.

Luis Garay retoma, assim, em Futuros Primitivos algumas questões que havia levantado em Atividade Mental (2012), onde investigava estados entre sábios e idiotas, no limiar entre a iluminação e o desespero, provocando uma relação horizontal entre objetos e humanos.

Não há hierarquia entre os corpos humanos e os corpos-coisas, o que gera uma qualidade de presença comum, isto é, a qualidade do estar tem qualquer coisa de similar entre performers e objetos. Como se aqueles buscassem um ser-coisa-movente que não se diferencia de um ser-pedra, de um ser-pneu e assim estabelecessem uma relação de coisa para/com coisa. Os objetos perdem sua utilidade deixam de ser algo para, livres de dominações, eles simplesmente são.

Em Futuros Primitivos os performers agem sobre as coisas. Todavia, são também agidos por elas, então seres que atuam, realizam uma ação, e também ecoam a relação que estabelecem simultaneamente. Produz-se assim uma ética que implica em conviver com coisas sem forçá-las a serem úteis constantemente, a estarem a serviço de algo. Neste trabalho as coisas não são necessárias para algo, elas são, existem e interagem com os demais corpos. Performers e coisas estão lado a lado co-existindo.

Em meio a este ambiente, por alguns momentos, produzem imagens que nos remetem a uma espiritualidade, como quando um objeto cilíndrico é levantado se assemelhando a um totem. Objeto que costuma ser um poste ou coluna, símbolo sagrado adotado como emblema por algumas tribos ou clãs por considerarem como seus ancestrais, e o performer se senta, como uma espécie de buda, em direção àquele. Neste lugar desolado, apresenta-se um futuro com o caráter das primeiras eras. Neste contexto, o que ganha importância? O tempo da experiência, que dilata as ações.

A experiência como algo que nos acontece, assim como os performers de Futuros Primitivos, que são possuídos pelas coisas com as quais entram em contato. O foco está muito mais em sofrer o acontecimento do que em provocá-lo. Isso é o sujeito da experiência, que é o sujeito que se caracteriza por sua passividade, por uma pré-disposição a uma abertura. Ele está, assim, muito próximo do ser apaixonado, no sentido de ser muito afetado por algo. Está exposto, vulnerável e que se arrisca com as alterações geradas por deixar-se afetar pelos acontecimentos.

A experiência como risco, como algo que nos atravessa e ao nos atravessar nos modifica. O que ganha importância é assim a possibilidade que algo nos aconteça e para isto faz-se necessário uma interrupção: pensar mais lento, sentir mais devagar, suspender a vontade, suspender a ação automática. Isto é, suspender os padrões, o modo como na maioria das vezes, senão sempre, resolvo os problemas, enxergo as coisas… Aprender a lentidão, dar-se tempo e espaço.

 

Bruna Spoladore é dançarina e apresentou Intimidade Dócil na Bienal de Dança do SESC 2015.