EDUARDO FUKUSHIMA X NATASCHA ZACHEO = O homem torto não se apoia em suas curvaturas

03/dez - 10:06

em torno de O Homem Torto, de Eduardo Fukushima Homem Torto

 

A Luz está acesa, depois se apaga. Reacende.

 

O homem torto não se apoia em suas curvaturas. No seu deslocamento em linhas retas e diagonais num corredor que acaba se moldando ao seu modo de existir, o ar que o compõe não o faz capaz de se sustentar numa respiração, mas talvez seja por isso mesmo que ele veio ao nosso encontro.

 

Parado. Parede esquerda ou direita, dependendo de onde se senta em sua passarela de torções, não faz muitas cerimônias e inicia sua trajetória que já havia começado em seu grande tronco. Ele nos deixa ver suas modificações, desde a gênese de sua fala no início do desfile de ‘desfoques’, até quando o corpo está por completo em água emergida dos poros.

 

Poros em desespero em uma linha que só ocorre por tranças. Ele nos indica de frente ou de costas o esforço, e se por um momento nos concentramos em somente fixarmo-nos nos pés: Socorro.

 

É possível que este corpo seja feito só de caule de planta, não há raiz que o ajude a caminhar na retidão do linóleo. Seu frágil pé que é o que não fundamenta, mas baseia toda arquitetura da coreografia – o Homem Torto só fica de pé – é pequeno e instável, até os dedinhos saem do chão.

 

Se olharmos por alguns segundos ele todo de costas, sua base desaparece na paisagem. Sim. É possível imaginar que esse homem some com os próprios pés.

 

Só há dois calcanhares que galgam a verticalidade tortuosa. Não existe linha reta que dê vetor newtoniano ao corpo que resiste aos próprios alicerces de treinamento, e que a partir do próprio treino purga por amedrontar o espaço em seus gestos de vertigem. Gestos que torcem as nossas retinas, íris, papilas gustativas, pedaços de pele mais duras ou mais moles, ossos que sustentam nossa carne diante de tamanhas espirais com cortes secos de fluxos: Ele pode nos dizer “sim, eu sei ir até o infinito, mas escolho romper o fluxo e fazer meu suor pingar até suas testas, seus pés, dedos.”

 

É difícil capturar em imagem fotográfica qualquer momento desse homem que cava com seu tronco o corredor do lugar que nos convida a estar. Ele não pára de se reestruturar se destruindo de grupos em grupos musculares em cada minuto que se propõe, para depois voltar. Incessante.

 

Tudo se apaga e se acende, e o homem torto está lá, todo feito no que acabamos de olhar e que não existe mais. Ele volta ao ponto inicial.

 

 

 

Natascha dança desde que nasceu na sala da casa da mãe dela. Aos 17 começou a dançar na sala da Escola Livre de Dança de Santo André, aos 22 na sala das Artes do Corpo, e hoje dança na sala que chamarem ela pra dançar.

 

Criação de imagem: Natascha Zacheo